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sexta-feira, novembro 02, 2012

...dizeres de Olhão...

Canita (um conto de «Porta-sim-Porta-não
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Era uma manhã de Agosto ao largo da Ilha do Farol.



A minha mãe já não se sentia bem quando a traineira largou mas o mestre Pexinha levou-a ao colo.

- Hás de ter os meninos em cima do mar que são filhos da água.

Arfava desde manhãzinha cedo. Era o primeiro parto.

Ainda bebeu um golinho de leite mas depois, acossada pelas dores, foi deitar-se com a língua de fora e os olhos brilhantes.

- Tome lá conta da canita, mestre, que ela hoje não deixa vossemecê fazer nada. Enquanto não deitar esse pessoal todo cá para fora, não o deixa da mão.

E o mestre lá foi deitá-la sobre um cobertor à proa do barco, debaixo de um toldinho armado com duas murjonas e uns bocados de rede.

- Força, menina, força, tá toda deslaiada. Ajude aqui mestre João.

Mestre João era pai de sete filhos. Parteiro deles todos que o dinheiro não era avonde para a comadre.

- Ó mestre João, acuda aqui.

Juntaram-se os homens todos ao pé de minha mãe, em volta redonda. Mestre João afagou-lhe o ventre bojudo, pressionando-o levemente. – Magana, tens a rede pejada, chegou-te bem o Tá-Vive!

Pararam as máquinas e fundearam o barco. Os rostos agrestes de sol e vento suavizavam-se em feições de criança.

- Um trapo, mosse, chega-me aí um trapo desses, debaixo do banco do alvará. E uma pinguinha de água.

- Vá, menina, molha lá a boca, prantes, prantes, força, força..

- Aí vem um.

-Ah mãe, tá opada.

-Cá está ele. Ena que gordo, parece uma tainha.

Dali a pouco nasceu outro, tudo macho. O Charrão, depois o Zeca; o Ambaneta e o Albine foram logo um a seguir ao outro.

- Tas derrengada, menina. Tá quase, Vá lá, mais um bocadinho.

Faltavam-lhe as forças mas enchiam-na de coragem aquelas mãos puídas em roldanas e adriças. A veemência com que faziam um nó de brandal desfazia-se na brandura com que acarinhavam cada recém-nascido.

- Vá , mulher. Vá, mais uma pinguinha de água, vá..

Dali a um belo bocado nasceu a minha mana Carochinha mais o mê mano Patude e no limite do milagre nasci eu.

Com muito custo a minha mãe rompeu aquele saco que quase me sufocava.

- É outra canita mestre, é outra canita, mas esta vem muito enfezadinha, parece uma formiga ao pé dos irmãos. Só tem a orgadura.

Senti o sol a aquecer-me o corpo ensanguentado como se de uma outra placenta se tratasse e enchi os pulmões de ar.

Ai aquele ar, um ar grosso de maré-cheia ali no balanço da água.

A princípio não percebi bem se estaria a nascer ou a morrer. Senti-me entre o nada e o nada, chorei baixinho, um choro de poucas forças.

- Olhe a canita, tem um pé cá e um pé lá. É de pouco corpo, isto, calhando, morre.

Foi quando a mão do mestre Pexinha me ergueu no ar a caminho da camisola aberta – Isto aqui não morre ninguém – esbravejou.

Era veludo e algodão aquela mão grosseira.

- Menina, menina...

Voltei a encher-me daquele ar marinhoso e adormeci junto do seu peito crestado de sol.

- Qual morre, qual quê – E afagava-me. Aquela mão foi o meu berço, o meu amparo, o meu porto de abrigo.

- Cão seja eu se esta formiga não se fizer na campeôa da ninhada.

E Formiga fiquei de nome e, modéstia à parte, na campeôa me tornei. Um homem bom não se deixa ficar mal.

Com quatro semanas experimentei a água. Que bom, que bom. Deus lá sabia o que fez quando nos botou os pés de pato.

- Ah filha de uma magana, nada como um peixe.

Muita rede desensarilhei eu. - Vai Formiga, apanha Formiga – E salvei o Canhambana no mar de Marrocos. Cachão marfado e a suestada p’los focinhos.... mal podia respirar. Mas filei-o pelo cagote. Vinha todo roxo o desgraçado. Nesse dia até comi camarão. – Menina, linda menina.

Outra vez, no defeso, era, aí uns nove ou dez homens à redinha, dentro da ria, num mar encarnado de salmonetes e dois cabrões de dois marujos à esprêta.

- Mosse ó Pardal, começa a meter o pêxe no chalavar que já aí andam os chules.

Ah, bem dito, bem feito, chegande-mes a terra já lá estava o Capuche. O da guarda fiscal.

Armou-se logo ali um escabeche pois queria três quartos do pêxe p’ra ele. Os homens que não e ele que sim e quando vejo aquele encante de galapos no ar direito ao Carlites, não respondi por mim. Atenchei-lhe os dentes num pulso e por mais um pouco ficava-lhe com a mão na boca. Cabrão.

Tanta vida, tanta vida. Aqui na nossa ria mais Formosa do mundo, no nosso mar e em Marrocos, em Espanha, até no Guadiana. Ali levávamos com a enviada carregadinha de ovos e café, a vela à capa no meio do rio, à espera que viesse do outro lado o bote espanhol buscar a mercadoria.

Era perigoso mas, os homens tinham que levar o sustento para casa. Umas vezes safavam-se, mas noutras, era um dó ver a carga ser deitada ao mar para não serem presos. Cá por mim, preferia mil vezes vê-la ir ao fundo a caminho da barriga dos peixes, do que vê-la sair para dentro do bandulho dos enflaitados da Capitania.

- Joel, põe a canita no baraço antes que ela se marafe. Eles sabiam. Sabiam que cabrão de farda que alevantasse a voz dentro daquele barco...

Belos tempos. Nada me cansava, era o trabalho, a brincadêra a bordo com os moços, a minha parte sempre certa na caldeirada, até na fome, era sagrada a minha coida. O Telhude, ah o Telhude, também já lá está.

Agora? É estranha esta pergunta. Agora? Na minha vida não houve nunca tempo para interrogações. Era em frente. Comer, trabalhar, defender o que me parecia certo. Porquê este bem estar quando, sem forças, me pergunto, Agora?

- Ponha a canita ao sol, mestre.

O sol. Que brilho, Jesus, que brilho. Consigo vê-lo agora sem abrir os olhos. O mar, preia-baixa-mar? Mestre Pexinha agarra-me agora como no primeiro dia, escuto-lhe a voz ao longe, tão perto, no ambanico dos seus braços. Sinto de novo esta bolsa morna a afagar-me o corpo.

- Então, mestre, não chore, homem. A canita havia de lhe morrer um dia.



Já não ouço nada. Agora sou mar, o mar, o mar ao largo do Farol que me leva de volta ao outro lado, lá onde o vento e as gaivotas pastorejam as almas de todos os cães de água.

( julieta lima)

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